ACASO
"Cada um que passa em nossa vida,
passa sozinho, pois cada pessoa é única
e nenhuma substitui outra.
Cada um que passa em nossa vida,
passa sozinho, mas não vai só
nem nos deixa sós.
Leva um pouco de nós mesmos,
deixa um pouco de si mesmo.
Há os que levam muito,
mas há os que não levam nada.
Essa é a maior responsabilidade de nossa vida,
e a prova de que duas almas
não se encontram ao acaso. "
quinta-feira, 21 de abril de 2011
Acaso
Por que você ama quem você ama?

Por que você ama quem você ama?
Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso contrário os honestos, simpáticos e não-fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo à porta.
O amor não é chegado a fazer contas, não obedece a razão. O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo.
Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fã do Caetano. Isso são só referenciais. Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca. Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se espera.
Então que ela tem um jeito de sorrir que o deixa imobilizado, o beijo dela é mais viciante do que LSD, você adora brigar com ela e ela adora implicar com você. Isso tem nome.
Você ama aquele cafajeste. Ele diz que vai e não liga, ele veste o primeiro trapo que encontra no armário. Ele não tem a maior vocação para príncipe encantado, e ainda assim você não consegue despachá-lo. Quando a mão dele toca na sua nuca, você derrete feito manteiga. Ele toca gaita de boca, adora animais e escreve poemas. Por que você ama este cara? Não pergunte para mim.
Você é inteligente. Lê livros, revistas, jornais. Gosta dos filmes dos irmãos Coen e do Robert Altman, mas sabe que uma boa comédia romântica também tem o seu valor. É bonita. Seu cabelo nasceu para ser sacudido num comercial de xampu e seu corpo tem todas as curvas no lugar (ou quase). Independente, emprego fixo, bom saldo no banco. Gosta de viajar, de música, tem loucura por computador e seu fettucine ao pesto é imbatível. Você tem bom humor, não pega no pé de ninguém. Com um currículo desse, criatura, por que diabo está sem um amor?
Ah, o amor, essa raposa. Quem dera o amor não fosse um sentimento, mas uma equação matemática: eu linda + você inteligente = dois apaixonados. Não funciona assim. Amar não requer conhecimento prévio nem consulta ao SPC. Ama-se justamente pelo que o Amor tem de indefinível. Honestos existem aos milhares, generosos tem às pencas, bons motoristas e bons pais de família, tá assim, ó!
Mas ninguém consegue ser do jeito do amor da sua vida!
Martha Medeiros
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
Soneto de Fidelidade
De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
Vinicius de Moraes
Comentários:
Nicole Fernandez Bravo (2000) explica que a literatura tem a vocação de pôr em cena o duplo, invalidando o princípio de identidade: o que é uno é também múltiplo, como o escritor sabe por experiência (p.282). Para ela, o mundo é representado pela narrativa ou por meio da palavra, especificamente pela narrativa literária, que é formada, como sabemos, por palavras polivalentes, isto é, representa mais de uma face da realidade.
Transportando o mundo real para o mundo imaginário, o poeta também usa o duplo. Surge, então, um novo tipo de representação que, sob o signo do imaginário, passa a estreitar as relações entre os homens, tornando-se um meio de identificação social.
O título Soneto de Fidelidade, o leitor, logo identifica-se com o eu-lírico, pois a busca do amor pelo outro, invalidando a identidade pessoal, eu amo tanto que amo mais você do que eu, seria mais ou menos está ideia.
A Dialética, também está presente, Soneto de Fidelidade, nos versos "E assim, quando mais tarde me procure/Quem sabe a morte, angústia de quem vive/Quem sabe a solidão, fim de quem ama" Amor versus dor. Já dito por mim que a ferida decorrente dessa cisão permanece aberta, pois a dor no caso, é permanente, só desaparecendo no "EU" encontrado o "SEU" outro "EU", e Vinicius fecha com o verso "Mas que seja infinito enquanto dure". A cisão desse amor gera a dor e a busca pelo novo amor.
Enquanto existir prometo a minha fidelidade, e, não seria isso que a natureza humana busca, mas infelizmente, mesmo que o Fim chega, mantém-se a máscara na face, porque muitas vezes é difícil buscar, coragem de buscar o desconhecido!
"Desejar violentamente uma coisa é tornar-se cego para o demais" Demócrito (século V A.c.)
Bibliografia: Vidigoi, Ivete. O espelho e a duplicação do Eu. 2005
